pt:br – Antes dos Arquivos
O corredor não terminava.
Eu caminhei por horas.
Talvez minutos.
Talvez desde criança.
Não sei.
Ali, o tempo não passava.
Ele repetia.
As portas eram iguais.
Madeira escura.
Maçaneta fria.
Pequenos riscos vermelhos perto do chão.
Em algumas, estava escrito meu nome.
Em outras, nomes que eu não conhecia.
Em outras, só números.
404 outra vez.
Ozzy caminhava à frente.
Sempre na mesma distância.
Nunca rápido.
Nunca lento.
Ele não olhava para trás.
Não precisava.
Eu seguia.
Mesmo sabendo.
Mesmo entendendo.
Mesmo odiando meus próprios passos.
Até que o corredor abriu.
Não para um quarto.
Para uma sala enorme.
Preta.
Sem teto visível.
Sem paredes certas.
No centro, havia mesas.
Centenas.
Talvez milhares.
Sobre cada mesa, uma caixa.
Sobre cada caixa, um arquivo.
Papéis.
Fotos.
Objetos.
Fitas.
Bonecos.
Partes de histórias que ainda não tinham acontecido.
Aproximei-me de uma mesa.
No arquivo, estava escrito:
TEMPORADA 1.
Abri.
Dentro havia fotos da minha casa.
Do espelho.
Da parede.
Do quarto trancado.
Da voz no escuro.
Tudo.
Antes de acontecer.
Antes de eu viver.
Antes de eu escrever.
Minhas mãos tremiam.
Fui até outra mesa.
TEMPORADA 2.
A caixa estava aberta.
Vazia.
Exceto por um pedaço de tecido preto.
E uma linha vermelha ainda presa na agulha.
No fundo do arquivo, havia uma frase:
“Os arquivos não criaram Ozzy.”
Li devagar.
A sala ficou mais fria.
A frase continuava na página seguinte:
“Ozzy observava antes deles.”
Virei.
Ele estava sentado no centro da sala.
Não no chão.
Sobre uma pilha de arquivos antigos.
Pequeno.
Silencioso.
Com o símbolo vermelho no peito.
Igual.
Exato.
Intacto.
Não parecia monstro.
Não parecia brinquedo.
Parecia origem.
Como se todo o resto fosse ruído tentando explicar a primeira presença.
Olhei para ele.
Ele olhou de volta.
E, pela primeira vez, não senti medo.
Senti arquivo.
Senti que algo em mim estava sendo catalogado.
Nome.
Casa.
Sangue.
Silêncio.
Tudo.
Então a luz vermelha apagou.
E acendeu de novo.
Eu estava no meu quarto.
Na minha cama.
O celular na mão.
A tela aberta no Necro404.
Um novo post publicado.
Título:
“Antes dos Arquivos.”
Autor:
Ozzy — Não siga o Cordeiro.
Eu não escrevi.
Mas meu nome estava nos comentários.
Postado há onze anos.
A mensagem dizia:
“Eu vi você chegar.”
En: Before the Archives
The corridor did not end.
I walked for hours.
Or minutes.
Or since childhood.
I don’t know.
Time did not move there.
It repeated.
The doors were identical.
Dark wood.
Cold handles.
Small red scratches near the floor.
Some had my name on them.
Others had names I did not know.
Others had only numbers.
404 again.
Ozzy walked ahead.
Always at the same distance.
Never fast.
Never slow.
He did not look back.
He didn’t need to.
I followed.
Even knowing.
Even understanding.
Even hating the sound of my own steps.
Then the corridor opened.
Not into a room.
Into a vast black space.
No visible ceiling.
No reliable walls.
Tables stood in the center.
Hundreds.
Maybe thousands.
On every table, a box.
On every box, a file.
Papers.
Photographs.
Objects.
Tapes.
Dolls.
Fragments of stories that had not happened yet.
I approached one table.
The file read:
SEASON 1.
Inside were photographs of my house.
The mirror.
The wall.
The locked room.
The voice in the dark.
Everything.
Before it happened.
Before I lived it.
Before I wrote it.
My hands shook.
I moved to another table.
SEASON 2.
The box was open.
Empty.
Except for a piece of black fabric.
And red thread still caught in a needle.
At the bottom of the file, one sentence waited:
“The archives did not create Ozzy.”
I read it slowly.
The room grew colder.
The next page continued:
“Ozzy was watching before them.”
I turned.
He was sitting in the center of the room.
Not on the floor.
On a pile of old files.
Small.
Silent.
The red symbol on his chest.
Unchanged.
Exact.
Intact.
He did not look like a monster.
He did not look like a toy.
He looked like origin.
As if everything else had only been noise trying to explain the first presence.
I looked at him.
He looked back.
And for the first time, I did not feel fear.
I felt archive.
I felt something inside me being cataloged.
Name.
House.
Blood.
Silence.
All of it.
Then the red light died.
And returned.
I was in my bedroom.
In my bed.
Phone in hand.
The Necro404 page open.
A new post had been published.
Title:
“Before the Archives.”
Author:
Ozzy — Don’t Follow the Lamb.
I did not write it.
But my name was in the comments.
Posted eleven years ago.
The message said:
“I saw you arrive.”
