O Olho Que Aprendeu a Esperar
Começou como todos os outros. Argila fria. Ferramentas alinhadas. Silêncio suficiente para ouvir os próprios pensamentos. Ozzy não planejava criar olhos…
Começou como todos os outros.
Argila fria. Ferramentas alinhadas. Silêncio suficiente para ouvir os próprios pensamentos.
Ozzy não planejava criar olhos naquela noite.
Mas as mãos decidiram antes.
Primeiro veio a forma. Depois a fissura. Por último, o olhar.
Não era perfeito. Não precisava ser.
O estranho foi o tempo.
A peça parecia envelhecer enquanto nascia. Pequenas marcas surgiam sem terem sido feitas. Linhas que ninguém lembrava de traçar.
Ozzy continuou.
Quando terminou, colocou o objeto sobre a mesa e apagou as luzes.
Na manhã seguinte, o olho não estava apontado para a mesma direção.
Pequena diferença. Fácil de ignorar.
Ele não comentou.
Visitantes começaram a reparar.
“Parece que ele acompanha a gente”, disse alguém.
Outro riu.
Mas ficou longe.
Dias passaram.
Fotos eram tiradas. Comentários surgiam. Alguns voltavam só para olhar novamente.
Sempre havia algo diferente.
Uma inclinação. Um brilho estranho. Uma sensação de atraso, como se o olhar chegasse um segundo depois.
Uma noite, sozinho, Ozzy ficou parado diante da peça.
Sem movimento.
Sem som.
Apenas observando.
E então percebeu.
O olho não seguia pessoas.
Ele esperava.
Como um predador paciente que não precisa correr.
Esperava até que alguém olhasse tempo suficiente.
Até que alguém percebesse demais.
Na semana seguinte, um visitante ficou imóvel por minutos.
Respiração lenta.
Olhar preso.
Quando finalmente se afastou, não disse nada. Apenas saiu, deixando a porta aberta.
Nunca voltou.
Desde então, Ozzy move a peça de lugar regularmente.
Não para escondê-la.
Mas para garantir que ela nunca tenha tempo suficiente para escolher alguém.
Ozzy nunca confirma.
Ele apenas observa quem decide olhar de volta.