O Visitante Que Nunca Saiu
Ninguém percebeu quando ele entrou. Não abriu a porta. Não fez barulho. Apenas apareceu sentado no canto mais escuro do ateliê,…
Ninguém percebeu quando ele entrou.
Não abriu a porta. Não fez barulho. Apenas apareceu sentado no canto mais escuro do ateliê, como se estivesse ali desde sempre.
Alguns visitantes desviavam o olhar. Outros fingiam não notar.
Mas todos sentiam.
Ozzy não perguntou quem era.
Continuou trabalhando.
A peça daquela noite era diferente. Linhas tortas. Formas orgânicas. Algo que parecia nascer mais rápido do que as mãos conseguiam acompanhar.
O visitante observava.
Sem piscar.
Horas passaram.
O ar ficou pesado. Cada movimento parecia ecoar além das paredes. A luz falhava por segundos curtos demais para serem explicados.
Uma cliente entrou.
Parou no meio do espaço e perguntou:
“Tem mais alguém aqui?”
Ozzy não respondeu.
Ela olhou para o canto. Franziu a testa.
“Eu sinto alguém…”
Mas não via.
Quando saiu, levou consigo um silêncio estranho, como se tivesse esquecido algo importante.
Na madrugada, a peça ficou pronta.
Ozzy afastou as ferramentas e olhou diretamente para o visitante.
Nenhuma palavra.
A figura levantou devagar e caminhou até a obra.
Por um instante, parecia refletida na superfície escura.
Depois… desapareceu.
Sem som. Sem movimento.
Apenas ausência.
Na manhã seguinte, o ateliê estava vazio.
Exceto pela peça.
E um detalhe novo.
Uma marca na base, que Ozzy nunca havia feito.
Um símbolo.
Desde então, quem observa essa obra por tempo suficiente sente a mesma presença atrás dos ombros.
Alguns olham para trás.
Outros preferem não descobrir.
Ozzy nunca explica.
Ele apenas deixa a peça onde pode ser vista.