A Peça Que Não Deveria Existir
Ninguém lembra quando ela apareceu. Não havia anúncio. Não havia postagem. Apenas surgiu ali, sobre a mesa escura do ateliê, como…
Ninguém lembra quando ela apareceu.
Não havia anúncio. Não havia postagem. Apenas surgiu ali, sobre a mesa escura do ateliê, como se sempre tivesse estado esperando.
Era pequena. Orgânica. Imperfeita de propósito.
E tinha olhos.
Não olhos reais. Não exatamente. Mas havia algo na forma que fazia qualquer pessoa parar por um segundo a mais do que deveria.
O primeiro visitante riu.
Disse que era “diferente”. Tirou uma foto. Foi embora.
Naquela noite, voltou.
Disse que precisava olhar de novo. Não sabia explicar o motivo.
Ozzy observava em silêncio.
Dias depois, outros começaram a chegar. Alguns ficavam pouco tempo. Outros permaneciam imóveis, como se a peça estivesse dizendo algo sem usar palavras.
Uma mulher perguntou o preço.
Ozzy respondeu apenas:
“Ela não foi feita para todos.”
Ela insistiu. Queria levar.
Quando tocou a peça, retirou a mão rápido demais. Não por dor. Por reconhecimento.
Como se algo ali tivesse olhado de volta.
Na manhã seguinte, a peça não estava mais no lugar.
Nenhum sinal de venda. Nenhuma embalagem aberta. Nenhuma marca.
Somente o espaço vazio.
E um detalhe estranho.
A mesa estava marcada. Uma impressão leve, quase viva, como se a peça tivesse decidido sair sozinha.
Ozzy não pareceu surpreso.
Apenas anotou algo em um caderno preto.
Desde então, visitantes juram ter visto a mesma peça em lugares diferentes.
Nunca igual. Sempre familiar.
Alguns dizem que ela encontra quem está pronto.
Outros dizem que ela encontra quem não deveria.
Ozzy nunca confirma.
Ele apenas observa.